da Alma (VII)


Para mim o FMMSines2008 acabou hoje. Eu sei que o último concerto já foi há quase uma semana. E para mim o melhor concerto do FMMSines2008 aconteceu hoje, longe de Sines. Foi aqui em Lisboa, em pleno e repleto Grande Auditório do CCB...
Enquanto em alguns céus de outras paragens se assistiu hoje a um eclipse solar, hoje assisti a um eclipse musical, em cima dum palco. Ver Tony Allen a tocar ao vivo é mais que um mero concerto, mais que apenas um espectáculo, é todo um acontecimento. Ele eclipsou-se mesmo ali à nossa frente, transformou-se num ser que comanda o nosso ritmo cardíaco, o pulsar do nosso corpo, o bombear do nosso sangue. Ele e aquela tarola com um som único. Foi este acontecimento que faltou ao FMM Sines 2008 para eu voltar para casa plenamente satisfeito.
Voltando uma semana atrás e ao FMM propriamente dito, não vou fazer uma análise detalhada de todos os concertos que vi mas vou apenas falar dos que gostei.
Marful - Vieram da Galiza e transformaram o Castelo num verdadeiro salão de baile com muitos ritmos latinos tradicionais à mistura. Bela presença da vocalista Ugia Pedreira e muito interessantes, pena que breves, as aparições dos bailarinos.
Toto Bona Lokua - O único disco deste projecto foi para mim uma bela descoberta e um caso de paixão à primeira escuta, isto há quase um ano. Não foi por isso estranho este ser o concerto que gerava mais expectativa dentro de mim. São 3 excelentes músicos, com carreiras a solo já conhecidas, que se decidiram juntar para gravar um álbum e divertir-se. Se no disco essa boa-disposição é notória, ao vivo é contagiante. Eles riem em cima do palco e deixam o público a rir até às lágrimas. A certa altura, ouvimos o teclista a avisar Toto, Bona e Lokua que têm de continuar a tocar porque há um horário a cumprir. Foi, sem sombra de dúvidas, o concerto mais divertido de todo o Festival. Os músicos são Gerald Toto (guitarra e voz, das Ilhas Martinique - Antilhas), Richard Bona (baixo e voz, Camarões) e Lokua Kanza (guitarra e voz, R. D. Congo).
Orchestra Baobab - Muita expectativa também para este concerto. Uma banda histórica da música senegalesa. Esta Orchestra formada por 4 vozes, duas guitarras, dois saxofones, um baixo e uma bateria/percussões encantou-me e deu-me uma enorme e urgente vontade de ir até Dakar, ouvir esta fusão de ritmos afro-cubanos com as melodias das guitarras muito assentes na tradição da rumba congolesa e do highlife e dançar até o sol se pôr. E depois continuar até o sol se levantar de novo. Senti, durante este concerto, uma brisa quente vinda de Àfrica que deixava a música respirar e eu a suspirar.
Toubab Krewe - Primeira surpresa / descoberta do meu FMM2008. Cinco músicos americanos partem para Àfrica em 2005 para aprender a música local com os mestres. Param no Mali, na Guiné Conakri e na Costa do Marfim e por lá descobrem a Kora, o Ngoni e variadas percussões tradicionais. Juntam a isso uma guitarra pouco rock e muito funk, um baixo muito reggae e nada rock e uma bateria meio jazz / meio funk e conseguem uma fusão perfeita entre a música negra tradicional vinda de Àfrica e a música negra mais moderna vinda da América. Resultado muito interessante e a mostrarem que mereciam o palco do Castelo. De notar que foram dos poucos músicos não-africanos a tocar no excelente "Festival Au Desert" no Mali.
Faiz Ali Faiz - Este "qâwall" paquistanês veio substituir outro, Asif Ali Khan, que não pôde entrar na Europa por problemas de visto. Burocracias à parte, foi um concerto belíssimo e o mais espiritual deste ano. Oito músicos, sentados em cima dum estrado montado na frente de palco, deliciaram a parte da plateia mais atenta (aquela que não estava ali só para dançar...) com os cânticos sufis, de melodias repetitivas e hipnóticas com o objectivo de nos envolver num transe colectivo até atingirmos um estado de êxtase interior. Eu posso dizer que atingi e senti-me renovado depois desta celebração, mesmo sem perceber uma palavra do mestre. Destaque para o miúdo que tocou perfeitamente as tablas durante uma hora e tal sem ter vacilado um minuto.
KTU - Ainda em estado de êxtase, entraram em palco três demónios do Inferno. Depois de os ter visto no mesmo local há 3 anos atrás, eis que eles voltam ao local do crime. Eu ainda pensei estar preparado para este concerto mas acho que nunca vou estar preparado para isto. Por muitas vezes que os veja e ouça. Eles são Kimmo Pohjonen no acordeão cheio de efeitos, um guitarrista/baixista (aquele instrumento chama-se Warr e tem 10 cordas...) e um baterista (ambos ex-King Crimson). Não há maneira de descrever este concerto sem, mais uma vez, usar a palavra diabólico ou demoníaco. Aquele acordeão traz sons verdadeiramente guturais, do mais fundo das cavernas, para os temas de construção progressiva e psicadélica. Espero que voltem cá, daqui a uns anos, para repôr alguma vertigem diabólica na minha vida.
Koby Israelite - Este acordeonista vindo de Israel foi meia-surpresa para mim. Já conhecia o trabalho dele na Tzadik (editora de John Zorn) mas ao vivo pareceu-me mais estimulante e excitante. Às melodias vindas da tradição Klezmer, saídas do seu acordeão, juntaram-se ritmos e desvarios jazz (por vezes quase free) e rock servidos por uma banda bastante competente e criativa composta por guitarra, teclados, baixo e bateria. De destacar o baixista Yaron Stavi, careca e gigante, que tocava com uma fúria tal que parecia não querer levar o baixo inteiro para casa.
Rokia Traoré - Esta senhora vinda do Mali resolveu oferecer um dos melhores espectáculos a que já tive o prazer de assistir em toda a minha vida. Posso dizer que não estava nada à espera deste excelente concerto e que ao final da segunda música era já, na minha humilde opinião, o melhor de todo o FMM2008. Que as músicas do novo álbum eram óptimas, já se sabia. Que os músicos que a acompanhavam já tinham certa rodagem juntos, também já se sabia. Mas, mesmo assim, e com as expectativas muito lá em cima pareceu fácil superá-las. Música após música. Rokia tem uma voz fenomenal, original e criativa, como há poucas em todo o mundo. E sabe usá-la como ninguém, quente e doce quando quer, possante e cheia quando tem que ser. A acompanhá-la estavam dois músicos do Mali, um na guitarra eléctrica e outro no ngoni a assegurarem as melodias tradicionais com passagens harmónicas pelo highlife e outros dois ocidentais, um no baixo e outro na bateria, a assegurarem todo o groove psicadélico com passagens pelo funk dos primórdios. Afro + Funk = Rokia! De realçar a bela senhora que fazia segundas vozes e que tinha os passos de dança mais cool de todo o universo. Tenho a impressão que o verso "Africa woman is a lady..." foi dedicado a ela. Pelo menos por mim, foi. Apaixonante.

2 comentários:

Ana Pena disse...

Que imensa vontade de ter assistido ao FMM me deixaste e mais ainda ao concerto a que estupidamente faltei do Tony Allen! Levo alguns dos nomes que referiste para conhecer especialmente da senhora Rokia à qual me abriste o apetite ;) Obrigada!

O Homem que Sabia Demasiado disse...

Eu estive em Sines apenas na noite de Faiz e KTU. Aliás, fiz também uma referência a esta noite no meu blog, para além de estar disponível uma entrevista que fiz ao Kimmo há dois anos.